SALTO
DE SETE QUEDAS |
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Sete quedas Por Pedro J. Bondaczuk O desaparecimento de um dos mais fantásticos espetáculos com que a natureza dotou o Brasil está completando 22 anos. Nos referimos aos saltos de Sete Quedas, no Rio Paraná, que ficaram submersos no imenso lago artificial que foi criado para possibilitar o funcionamento da maior hidrelétrica do mundo (parece que agora foi superada, ou está em vias de ser, por uma ainda mais imponente, na China) a de Itaipu, na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Na ocasião do seu desaparecimento, personalidades de várias áreas manifestaram-se – favoráveis ou contrárias – à decisão. Redigiram-se editoriais, crônicas e até poemas em jornais e revistas. Mas ninguém agiu de forma efetiva, séria e prática para impedir sua submersão.. "Words, words, words...", diria Shakespeare, do alto da sua sapiência. Hoje, poucos brasileiros sequer se lembram que essas cachoeiras existiram. Alguns confundem as sete quedas desaparecidas com os saltos existentes na Foz do Iguaçu. Quem teve a oportunidade de assistir a esse fantástico espetáculo da natureza, traz a cena gravada para sempre na retina. Mas por mais imaginativo que seja, por melhor memória que possua, jamais conseguirá reproduzir a imagem majestosa, de bilhões de metros cúbicos de água despencando por segundo do alto de ribanceiras rochosas para o abismo, com um ruído ensurdecedor. Quem viu, muito que bem. Quem não teve esse privilégio, jamais verá, pelo menos ao vivo. Pode, quando muito, apreciar os filmes e vídeos feitos antes da submersão, o que não é a mesma coisa. Fico imaginando como as pessoas se sentiriam, por exemplo, se a Torre de Pisa, que de ano para ano aumenta a sua inclinação, apesar das várias reformas por que passou, finalmente desmoronasse. Ou se as pirâmides do Egito, que resistiram a tantos e tantos cataclismos, entre os quais catastróficos terremotos, finalmente se vissem vencidas pelo tempo e ruíssem. Ou, o que é pior, se fossem demolidas por algum maluco insensato, que pensasse em as remover do caminho para passar por ali uma rodovia qualquer. Ou se ocorresse o mesmo em relação à Esfinge. Ou se a Torre Eiffel, que se tornou referencial de Paris, fosse desmontada e vendida como sucata. Guardadas as devidas proporções, foi o que aconteceu com Sete Quedas. Sua beleza, majestosidade e volume de água eram superiores às das famosas cataratas do Niágara, na fronteira entre Estados Unidos e Canadá. Ali também há uma hidrelétrica. Mas os saltos não desapareceram. Estão ali para quem quiser ver, poder apreciar. Os defensores da submersão argumentam com a necessidade de aproveitar, ao máximo, acidentes da natureza como este, para trazer conforto e bem-estar ao homem. Caso Itaipu não existisse, o País estaria hoje em sérios apuros em matéria de geração de eletricidade. Em pouco tempo, essa obra, que já chegou a ser considerada faraônica, se tornou insuficiente para suprir a demanda de um país que ainda está para iniciar sua arrancada para o pleno desenvolvimento. Mas suponhamos – e não se trata de suposição tão tola quanto aqueles que não têm visão de futuro podem supor – que o homem desenvolva outras tecnologias, mais avançadas e racionais do que as atuais, para gerar energia. É possível que no espaço de algumas décadas, o que está aí seja absolutamente arcaico, ultrapassado, irracional, considerado coisa “primitivíssima”. Nessas circunstâncias, as hidrelétricas, todas elas, se tornariam inúteis, certo? Inclusive Itaipu, não é mesmo? Pois bem, haveria como restabelecer Sete Quedas? Certamente que não! E mesmo se houvesse, alguém iria investir neste restabelecimento? A resposta, mais uma vez, é negativa. O desaparecimento dessa maravilha da natureza, portanto, é irreversível. Quantas coisas mais não teriam desaparecido, sem deixar o mínimo vestígio, em séculos passados, pela ação do homem?! Há uma teoria que diz que a civilização é feita em ciclos. Afirmam, estes teóricos, que a humanidade atingiu o ápice e retroagiu às cavernas, à mais absoluta barbárie não somente uma vez, mas três, cinco, dez, vinte vezes ou mais. Será?! Ninguém pode provar que isto de fato tenha ocorrido. Mas o contrário também não. Em relação ao alagamento das cachoeiras, ficamos com o protesto quase solitário de Carlos Drummond de Andrade, feito em versos magistrais, que dizem: "Sete Quedas por nós passaram E pensar que isso foi obra de seres sumamente
transitórios, mortais... |
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